Após mais de duas décadas vivendo na Espanha, Pedro Torres apresenta na Zielinsky, em São Paulo, a exposição das–vindas—i, sua primeira individual no Brasil. Com abertura em 13 de junho, sábado, a mostra reúne trabalhos inéditos produzidos especialmente para a ocasião. A mostra marca um momento importante da trajetória do artista, que vem realizando exposições em instituições europeias e prepara uma individual na Fundació Miró Mallorca.
Torres desenvolve uma pesquisa que articula instalação, vídeo, escultura, texto e luz em torno da noção de tempo. A partir de investigações que atravessam percepção, linguagem, física e experiência espacial, o artista constrói obras que tensionam relações entre matéria, memória, deslocamento e realidade.
Em das–vindas—i, essa pesquisa aparece diretamente atravessada pela condição de viver entre Brasil e Espanha. O título da mostra sintetiza essa operação. Ao deslocar a expressão “idas e vindas”, o artista cria uma construção circular que incorpora também o “i” catalão — equivalente ao “e” em português — transformando a própria linguagem em espaço de trânsito e repetição.
“Foi importante pensar esse retorno, essa relação com o Brasil a partir das idas e das vindas”, afirma. “É uma exposição bastante autobiográfica dentro dos meus parâmetros mais conceituais.”
A mostra também dialoga diretamente com o pensamento do filósofo e escritor martinicano Édouard Glissant, especialmente suas formulações sobre errância, nomadismo circular e “poéticas da relação”. As ideias do autor atravessam a construção conceitual da mostra e aparecem incorporadas às reflexões do artista sobre deslocamento e identidade
“Trata-se aqui da imagem do rizoma, que nos permite saber que a identidade já não se encontra apenas na raiz, mas também na Relação”, assinala o texto da exposição, citando Glissant. Esta premissa materializa-se na galeria através de um percurso que liga o material ao simbólico, o brasileiro ao europeu, e o natural ao industrial.
Ao ocupar o espaço da galeria como um percurso contínuo, a exposição aproxima obras aparentemente simples — galhos, motores, areia, luz, acrílico, palavras — de questões filosóficas e perceptivas mais amplas. Em um dos trabalhos, duas madeiras giram continuamente até se encontrarem e se desencontrarem, sugerindo diferentes formas de medir e experimentar o tempo. Em outro, discos de acrílico dicróico alteram radicalmente sua aparência conforme o ponto de vista do espectador, propondo reflexões sobre subjetividade e percepção da realidade.
A linguagem também ocupa um papel central na mostra. Uma instalação textual em português e espanhol percorre uma das paredes da galeria em um fluxo contínuo de palavras e deslocamentos: “daqui, de lá, nem daqui, nem de lá”. A obra ecoa interesses do artista pela poesia concreta e pelas relações entre linguagem, espaço e movimento.
Outro núcleo importante da exposição é o vídeo Sandans, que utiliza a areia — o material mais antigo para medir o tempo — como protagonista. As mãos do artista manipulam areia repetidamente diante da câmera, criando uma espécie de relógio de areia expandido, atravessado por ruídos digitais e imagens fantasmagóricas. “Penso a areia como uma das primeiras matérias de contar o tempo”, comenta. “O vídeo acaba criando um fluxo matérico do tempo, entre passado, presente e futuro.”
Radicado em Barcelona desde o início dos anos 2000, Pedro Torres desenvolveu uma trajetória marcada pela pesquisa interdisciplinar e pela construção de instalações que articulam matéria, imagem, tempo e experiência espacial. Além da sua formação em comunicação na ECA-USP e ter trabalhado Escola do MASP, o artista construiu sua trajetória artística entre bibliotecas, cursos livres e experiências ligadas à curadoria, ao vídeo e aos livros de artista. Nos últimos anos, realizou exposições e projetos em cidades como Roma, Tenerife, Palma de Mallorca e Madri, além de participar de programas de residência e bolsas de investigação na Espanha. Além disso, tem obras em coleções como MACBA (Barcelona), Fundación Botín (Santander) e Colección INELCOM (Madri).