Rodrigo Bivar | Ficção


Inauguração
17 de outubro 2026
15h-18h

Exposição
17 de outubro –
18 de novembro, 2026


Zielinsky São Paulo

 

Duas ficções
por Ana Roman

Em As Margens da Ficção (2017), o filósofo Jacques Rancière propõe pensar a ficção como uma "estrutura de racionalidade", um modo de organizar coisas e acontecimentos para que eles possam ser percebidos e compreendidos. A palavra ficção, para ele, designa o trabalho de escolher o que merece ser contado, pôr os acontecimentos numa ordem e estabelecer relações de causa entre eles. As margens do título são as bordas em que a ficção encontra o que parecia estar fora dela. Uma delas é a das ciências sociais, que tomaram emprestado da ficção o modo de encadear causas e efeitos, de maneira que também um estudo de sociologia decide quais dados importam e como eles se ligam. Outra é a da literatura moderna, que trouxe para o centro o que antes ficava na beirada: os acontecimentos triviais, as pessoas comuns, o instante sem importância em que uma vida inteira pode se revelar.

Extrapolando esse pensamento para o campo das artes visuais, poderíamos dizer que toda pintura, figurativa ou abstrata, pode ser também uma ficção. Em qualquer uma delas há escolhas, uma ordem e relações entre elementos, sejam figuras reconhecíveis, sejam cores, formas e gestos, e nas duas se organizam ao mesmo tempo o espaço da representação e o espaço pictórico. No trabalho de Rodrigo Bivar, figuração e abstração convivem há anos, sem que uma tenha substituído a outra, e a mostra Ficção traz as duas para o mesmo espaço.

Com esse título, é impossível não lembrar o livro Ficções (1944), de Jorge Luis Borges, em que, diferentemente da perspectiva de Rancière, a ficção é lida como invenção e chega ao ponto de fabricar um planeta inteiro. Em "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", conto publicado pela primeira vez em 1940 e escolhido para abrir o volume, o narrador descobre, junto com o amigo Adolfo Bioy Casares, o verbete de um país que não consta de nenhum mapa, e mais tarde encontra um tomo avulso da enciclopédia de Tlön, redigida ao longo de gerações por uma sociedade secreta de intelectuais. Tlön tem geografia, história e idiomas próprios. Nas línguas do seu hemisfério norte não há substantivos, e as coisas se formam pelo acúmulo de adjetivos: em vez de lua, diz-se aéreo-claro sobre escuro-redondo, ou qualquer outra combinação. A literatura de lá está cheia de objetos sem correspondência no mundo real, que surgem ou se desfazem conforme o poema pede. As pinturas de Bivar têm algo desse planeta. Cada uma tem a autonomia de um pequeno mundo, com leis próprias, em que cores e formas se relacionam segundo uma lógica que só vale ali.

Durante cerca de dez anos, a pintura figurativa de Bivar partiu de fotografias que ele fazia do cotidiano, e a imagem chegava à tela praticamente resolvida na foto. Por volta de 2015, sem deixar a figuração de lado, ele começou a trabalhar também numa abstração geométrica de planos e faixas de cor, que foi ficando mais rigorosa e mais econômica. A geometria funcionou como uma inflexão. Bivar não queria, no entanto, se tornar um pintor geométrico, e aos poucos formas orgânicas começaram a se insinuar entre os planos retos, até se tornarem o assunto principal. A maior parte das obras aqui reunidas vem desse percurso.

Em pequenas pinturas, o artista desenha as formas, cobre, apaga e escava até que o contorno fique marcado como se tivesse sido cortado. Passa longos períodos sobrepondo tons, e, como contou à escritora Laura Liuzzi, chega um momento em que tem certeza de que o quadro está pronto, algo que compara a encontrar a palavra certa num poema. Tentar adivinhar o que ficou escondido sob a última camada seria, nas palavras dele, uma arqueologia inútil. O resultado tem algo de primário e embrionário, como um organismo em formação. Diante dessas pinturas, a situação lembra a de uma criança que ainda não aprendeu a ler e copia as letras de uma página como quem desenha, atenta às curvas e às hastes antes de qualquer sentido. Algumas das formas, com seus braços e dobras, parecem mesmo pertencer a um alfabeto desconhecido, tal que o olhar reconhece por um instante um personagem numa forma que logo volta a ser só forma. Os títulos acabam por nos puxar nessa direção: Divino, Zanga, Bigode Rosa e Susto dão às figurinhas um estado de ânimo, um atributo ou um traço de rosto, quase um temperamento, e chegam depois, como apelidos. Há humor nesses seres, que se inclinam e se esticam no meio da tela, e há também algo de dança, como se cada um tivesse sido flagrado no meio de um passo. 

Já a série Alegrias ou Perturbações do Contorno anuncia no próprio título onde está seu interesse. Mas de que contorno se trata? Do limite da forma recortada, da borda do papel pintado ou da moldura que separa a obra da parede? De certo modo, de todos eles. Bivar recorta folhas de papel Paraná, pinta as placas e, depois de secas, as emoldura. Fundo e moldura recebem cores industriais, escolhidas criteriosamente entre tintas e acabamentos de catálogo. Pelas aberturas, essas áreas entram na composição e embaralham a hierarquia entre os planos: aquilo que está atrás pode avançar, enquanto a parte pintada recua. Em outras peças, a abertura é percebida simplesmente como vazio. Bivar dedica a esses componentes uma atenção incomum. Partes que normalmente servem apenas para proteger ou arrematar a obra recebem o mesmo cuidado que a pintura, aproximando o quadro de um objeto.

O corte conserva os pequenos desvios da tesoura e do gesto da mão, ao mesmo tempo que revela a espessura do papel. O artista coloca em contato duas materialidades distintas: a pintura feita no ateliê e a área lisa, uniforme, que permaneceu intocada: às vezes, Bivar aproxima os tons; em outras, acentua o contraste entre eles. No primeiro caso, a borda quase desaparece e o desenho se confunde com o plano posterior; no segundo, a separação se torna mais nítida. O título nomeia justamente essa oscilação: há alegria na precisão de um recorte que se fecha e perturbação na irregularidade que denuncia o processo de feitura. Nesses trabalhos, muda também o papel da cor: ela deixa de estar subordinada à descrição de uma coisa reconhecível e passa a valer pelas relações que estabelece, seja misturada na paleta, seja escolhida entre tonalidades padronizadas pelos fabricantes.

Por fim, o percurso na exposição se encerra com um gesto um pouco inusitado. Numa obra site-specific, concebida para a parede que ocupa, Bivar põe figuração e abstração em contato, lembrando que ambas pertencem à mesma prática. Sobre uma grande mata desenhada em escala arquitetônica, dispõe pequenas telas ocupadas por formas e seres que aparecem em outros momentos de sua produção. As partes parecem vir de lugares diferentes, quase como personagem e cenário produzidos separadamente e combinados apenas depois. Elas não coincidem perfeitamente, e o artista não procura disfarçar essa descontinuidade. A diferença de escala, técnica e suporte integra, assim, a própria composição.

No início deste texto, recorremos a Rancière para pensar a ficção não apenas como invenção de uma história, mas como um modo de criar relações. É o que ocorre aqui. Sem construir propriamente um enredo, Bivar aproxima mata e criaturas, desenho mural e pequenas telas, fazendo coexistir registros distintos sem estabelecer hierarquia entre eles. As emendas permanecem à vista e retomam uma questão que atravessa toda a mostra: a atenção aos limites, aos recortes e às zonas de contato. Diante desse conjunto, já não é tão simples dizer se os seres entraram na paisagem ou se a paisagem passou a fazer parte do mundo inventado por eles. A pergunta pode ser estendida à pintura de Bivar como um todo: entre figuração e abstração, qual das duas acolhe a outra? A resposta talvez importe menos do que aquilo que elas compartilham, o prazer da pintura, que, nos trabalhos do artista, se concentra nos pequenos ajustes entre uma cor e outra, entre uma forma e sua borda. É desse prazer que nascem as duas ficções.