Não-lugares ou o tempo das imagens
por Cristiana Tejo, agosto de 2026
Vivemos rodeados por imagens. Elas atravessam diariamente as telas dos telefones, dos computadores e dos painéis luminosos da cidade, surgindo, desaparecendo e sendo substituídas por outras num fluxo aparentemente inesgotável. Nunca produzimos tantas fotografias, nem elas circularam com tanta velocidade. A aceleração de sua circulação parece reduzir também o tempo de sua permanência, como se sua existência se esgotasse no próprio instante em que aparecem. Mas talvez essa seja apenas uma das histórias que elas podem contar na atualidade. Existe, porém, outra história, menos evidente, que começa quando voltam a ser vistas, muitos anos depois, deslocadas do contexto em que foram produzidas e inesperadamente capazes de estabelecer novas relações e produzir novos sentidos. É essa segunda temporalidade das imagens, feita de deslocamentos, reativações e estados de latência, que Vera Chaves Barcellos investiga há mais de seis décadas. Em sua obra, uma imagem nunca coincide inteiramente com o momento em que foi produzida, pois permanece aberta, aguardando relações que talvez só venham a surgir muito tempo depois.
Desde as primeiras xilogravuras dos anos 1960 e, sobretudo, a partir da incorporação da fotografia em sua produção na década seguinte, Vera compreendeu a imagem como um campo permanente de experimentação. Em suas séries, a fotografia apresenta-se como matéria aberta a operações de aproximação, repetição, inversão, comparação e montagem. A serialidade, presente desde os trabalhos da série Testarte, torna-se um modo de pensar visualmente, já que uma imagem nunca está sozinha, mas existe sempre em relação a outras. Cada novo arranjo modifica aquilo que parecia conhecido e revela relações que permaneciam em estado de latência. A imagem deixa de ser um objeto concluído para tornar-se um campo de possibilidades temporais.
É justamente essa confiança na potência temporal das imagens que constitui Não-lugares. As fotografias reunidas nesta exposição foram produzidas em diferentes momentos da trajetória da artista, em espaços de passagem como aeroportos, praias, estradas ou vias urbanas. São imagens aparentemente banais, registradas ao longo de décadas, que agora reaparecem sob novas configurações. Ao retornar a fotografias produzidas em diferentes momentos de sua trajetória, Vera não revisita simplesmente um arquivo, mas reabre um campo de relações que permanecia latente nas próprias imagens. A montagem torna-se, assim, menos um procedimento formal do que uma operação capaz de ativar potencialidades que o tempo havia preservado sem esgotar. Neste sentido, latência talvez seja a palavra que melhor define esta exposição. Na fotografia, ela designa a imagem invisível que já existe antes da revelação, mas em Vera Chaves Barcellos essa condição ultrapassa o processo fotográfico e torna-se uma forma de compreender a própria vida das imagens. Elas permanecem em suspensão muito depois de terem sido produzidas, conservando relações, aproximações e sentidos que ainda não se manifestaram. O tempo não é apenas aquilo que separa uma fotografia de outra, mas é constitutivo da própria construção da obra. As imagens amadurecem porque permanecem latentes.
Marc Augé definiu os não-lugares como os espaços paradigmáticos da supermodernidade, tais como aeroportos, hotéis, rodovias e centros comerciais, marcados pela circulação, pelo anonimato e pela transitoriedade. Três décadas depois da publicação de Non-Lieux, entretanto, talvez a própria condição dos não-lugares tenha se transformado. Se antes eram sobretudo as pessoas que viviam em trânsito, hoje também as imagens circulam incessantemente. São copiadas, reenquadradas, filtradas, remixadas e redistribuídas pelas plataformas digitais, desprendendo-se rapidamente do tempo e do lugar em que foram produzidas. Há, portanto, um deslocamento da questão de onde estamos para onde e como as imagens continuam existindo. Ao percorrer esta exposição, torna-se difícil pensar os não-lugares apenas como espaços físicos. Aeroportos, carros em movimento, caminhantes na praia, reflexos, sombras e silhuetas aparecem como situações distintas de uma mesma experiência. Pouco a pouco, o próprio estatuto da imagem passa a ocupar o centro da reflexão. Também ela vive em trânsito, muda de contexto, de suporte e de sentido.
As obras de Não-lugares organizam-se, em sua maioria, em dípticos nos quais uma mesma imagem retorna alterada por discretas transformações de cor, contraste, espelhamento ou enquadramento. À primeira vista, parecem repetições, no entanto, um olhar mais demorado revela diferenças que transformam inteiramente a experiência da imagem. O reconhecimento nunca é imediato. Cada par exige que o olhar oscile continuamente entre semelhança e diferença, permanência e transformação. Mais do que um recurso compositivo, esses dípticos condensam um procedimento que acompanha Vera Chaves Barcellos há décadas. Se antes a comparação se estabelecia entre grandes séries fotográficas, agora ela se concentra entre duas imagens quase idênticas. A repetição deixa de afirmar a igualdade para tornar visível aquilo que só existe como diferença. A montagem não reúne imagens para estabilizar um sentido.
Essa compreensão aproxima a obra de Vera Chaves Barcellos das reflexões de Georges Didi-Huberman sobre a sobrevivência das imagens. Nenhuma imagem pertence exclusivamente ao instante em que foi produzida. Ela permanece disponível para reaparecer, deslocar-se e integrar novas constelações visuais e temporais. Sua história nunca se encerra no momento do registro. Em Vera, porém, essa sobrevivência não assume a forma da nostalgia nem da memória como recuperação do passado. O que retorna não é o acontecimento original, mas aquilo que permanecia em latência na própria imagem e que apenas uma nova montagem torna visível.
Talvez seja justamente isso que Não-lugares nos proponha observar. Em um tempo em que milhões de fotografias desaparecem diariamente na velocidade do scroll infinito, Vera Chaves Barcellos demonstra que uma imagem nunca está definitivamente concluída. Talvez seja essa uma das contribuições mais singulares de sua obra: confiar que uma imagem guarda possibilidades que nem mesmo o instante de sua criação foi capaz de revelar. Num presente marcado pela aceleração e pelo consumo incessante do visível, esta exposição nos lembra que algumas imagens precisam de décadas para dizer tudo aquilo que ainda contêm.